sexta-feira, 23 de setembro de 2011

E ela tinha isso: um sorriso que despertava em mim a maior das fomes do universo. Vontade de absorver, engolir sem mastigar, de ingerir plenamente aquele sorriso que não era feito de dentes e lábios, mas de luz e prazer.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Não um mero jogo de palavras...

Não há sono quando se quer sonhar, não há sonhar quando sequer dormir se pode... tenho um sono meio inerte, um sono meio palavroso. Meu sono é eloquente, poucas vezes falei tanto quanto falo ao dormir: cada tremor de pálpebras traz consigo um pouco da minha história e cada pesadelo diz muito sobre minhas dores. Dormir é uma forma de não ver, ou fingir que não se sabe... mas a cada grito do mundo, desperto, ou insiro tais gritos nos meus próprios sonhos. Juntam-se, aos berros, meus berros e os berros do mundo e eis que meu sono é invadido por uma gritaria sem fim. Falo, falo muito, mas nada digo, ou por vezes prefiro ouvir sem escutar, ou mesmo tocar sem sentir. Sonhar sem sonhar também é possível, bem como acordar sem despertar. Simplesmente parece melhor não entrar em contato, com tato, contatar, como tá, está...e fica!

A metalinguagem da loucura

A loucura ensina sorrateiras lições, puxa o tapete da razão, subverte a lógica compartilhada e insere a sua própria, sem pudor, despudoradamente, sem pedir licença, sem dar bom dia. A loucura não está para ser entendida, ela se ri do teu esforço cartesiano, gargalha do teu quadradismo técnico e zomba da tua angústia com ares de superioridade. A loucura é um saber que não se circunscreve, não se submete, que não se encaixa no continuum de sentido que usamos para entendê-la. Sua coerência é intocável, inegável e, por vezes, inenarrável. A loucura é um bicho feroz, indomável, selvagem por natureza, que não se adapta a cativeiros, quaisquer que sejam eles. A loucura apraz-se de si mesma, autossuficientemente, e te desperta risos trêmulos de ansiedade. A loucura amiúde amedronta, causa pânico, insônia, critérios diagnósticos da loucura curiosa que causa nos não-loucos... a metalinguagem da loucura!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um Earl of Abergavenny de tesouro simbólico

Um naufrágio. Em águas profundas encerrei meu destino. Tudo que eu fui, as porcelanas do meu corpo, o ouro das minhas visões e a prata do meu mundo ficarão descansadas no fundo mais profundo do mar. Quiçá esqueçam tudo isso por séculos e talvez nunca queiram resgatar minha história. As circunstâncias do naufrágio não passarão de especulações a serem sustentadas ora pela crendice popular ora pelos homens ditos de ciência. A essa altura, muito pouca diferença faz. O fato é que afundei. Ao longo do processo de descensão e decadência pude vivenciar o franco estado de inanição. Minha morte dava vida à vida circundante. Os seres marinhos não lamentaram, tampouco os piratas. Em pouco tempo mesclado estava eu a tudo que outrora também submergiu. Minhas armas de guerra não foram suficientes, minha tripulação, meus eus em mim, nada puderam fazer. Meu capitão, meu ego amiúde megalômano, apenas pôde lamentar, sem poder se dar ao direito covarde de salvar a si próprio. Mas não sou eu bem um Earl of Abergavenny pois meu tesouro não tem valor. Ninguém poderá me alcançar. Não há resgate suficientemente intrépido capaz de trazer-me uma vez mais à superfície, porque sou muito pesado, minha carga é de toneladas... e se já nem mesmo eu tenho algo a fazer, por favor suspendam as buscas!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

E nos queríamos, simplesmente. Teu olhar comia cada segundo do meu sorriso, minha boca degustava cada centímetro da tua pele, assim, ao longe, mas tão perto que eu poderia mesmo descrever-te o sabor. E nos amávamos às escuras, às escondidas, esperávamos que a penumbra caísse sobre a terra para manifestar o que já estava tão evidente àqueles que não são cegos. E eu estava cego, tão cego que só exergava diante de mim a possibilidade da tua presença, a presença tão presente nos meus sonhos e devaneios diurnos. E não havia quem nos condenasse, exceto nosso próprio receio da dúvida, nosso medo do porvir inseguro.

A Partida

Foi arrumando as malas para a viagem que ele percebeu o excesso de bagagem. Não havia, porém, como reduzir o que lhe interessava levar, tampouco era possível, naquele momento, comprar mais mochilas. Viu-se diante de um impasse, talvez um dos maiores da sua existência, pois nunca lhe fora ensinado, e ele nunca aprendeu por si só, a desvencilhar-se do que para muitos seria visto como supérfluo. Tudo lhe parecia importante, todo objeto que ali estava tinha especial valor, cada um deles contava um pouco da sua história, era membro permanente da sua biografia. Abandonar qualquer coisa seria como amputar-lhe um membro do corpo; doloroso demais para ser levado a cabo. Mais de uma vez pensou em não levar nada, para não ser injusto ao fazer escolhas, mas não havia como desnudar-se de tudo para começar do zero. Paulatinamente foi percebendo que algumas coisas pesavam demais, desequilibravam todo aquele sistema chamado mala e ocupavam mais espaço do que deveriam.

Usando sua capacidade humana de planejamento, decidiu pensar sobre o que mais ele precisaria nessa viagem específica, mas isso exigiria dele uma habilidade próxima dos profetas, pois certas coisas não permitem inferências, por mais consistentes que estas pareçam ser em princípio. Foi-se apercebendo de que, na verdade, idealmente levaria muito mais coisas do que já havia selecionado, e que lhe seria demasiado doloroso ter que, mais uma vez, filtrar o que era importante. Entretanto, ele tinha clareza de que para essa viagem nem tudo era possível carregar e não adiantava pagar pelo excesso de babagem, porque essa possibilidade inexistia. Era preciso mesmo ter coragem e selecionar um pouco melhor, aproveitando o pouco tempo que lhe restava antes do embarque. Foi o que fez. Retirou toda aquela bagagem outrora arrumada, repensou o valor de cada uma delas e decidiu que, mais importante que levar, era mister deixar algumas coisas por aqui, pois teriam mais valor nessas terras. Deu-se conta de que deixar coisas não significa, necessariamente, abandoná-las; pelo contrário, deixar algo cria um elo eterno entre aquele que fica e aquele que vai. E ele sabia que não mais voltaria, pelo menos não nesses tempos, e eis que decidiu levar apenas metade das suas coisas. A outra metade aqui ficaria, contando para todos sua história, para que as próximas gerações tivessem acesso ao seu legado. Preferiu partir sem se despedir, sempre detestou despedidas tristes, e essa, especialmente, deveria ser vivenciada com leveza, afinal, era sua última viagem com destino incerto... nesse ponto sentia-se em casa, uma vez que partir sem ter planos além de aproveitar a viagem sempre foi algo que lhe apeteceu.

Eis que a hora chegou. Uma última lágrima ousou-lhe cair pela face, beijando-lhe o pescoço e finalizando seu destino na gola da camisa amarela que trajava. Sua última gota vital, seu último fluido corporal antes da partida. Deu tempo de sentir saudade, alegria, arrependimento, raiva, todos aqueles afetos tipicamente humanos. Isso também fazia parte do processo de levar e deixar coisas, e alguns desses sentimentos foram deixados para trás, tornando sua mala mais leve. Agora sim se sentia capaz de conduzir sua mala. Aquele peso que parecia de toneladas se tornou suportável e ele sentiu satisfação pelas escolhas que fez. Viajar satisfeito com o que se leva e o que se deixa é essencial para aproveitar bem todo o processo. E ele foi... nesse voo não há atrasos, não há acidentes. O destino pode ser incerto, mas sua chegada é uma questão incontestável. Não se sabe ao certo se partiu sozinho ou acompanhado, mas levou consigo o que de fato precisava, já que suas necessidades serão outras a partir de então...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Belo e o Onírico

Era um sonho real, quase uma lembrança, e ela dançava pela neblina de uma manhã cinza. Seus movimentos eram o movimento da vida, em todas suas particularidades, e ela por si só podia reproduzir o ritual de várias dançarinas ao redor de uma fogueira. Não havia fogo mas havia desejo, havia paixão, logo tudo queimava ao seu entorno. Meus olhos mal podiam desviar-se daquele evento, que apesar de sonhado era tudo que por tanto tempo ansiei. Todos os mistérios do universo nela encontravam respaldo, pois seu jeito, gracioso e sensual, não permitia maiores aproximações investigativas. Todos a podiam tocar, mas apenas com o olhar... e a mim tampouco era permitido nada além. Eu sabia quem era aquela moça. Como não a reconhecer? Poder-se-iam passar séculos, vidas, mas aquele sorriso ousava desafiar o tempo. Ainda era o mesmo sorriso, a mesma graça de viver, a mesma leveza dos passos.

Seu olhar não encontrou o meu, talvez eu não tenha sido tão marcante para ela, mas ela tinha a doce capacidade de estimular todos os meus sentidos. Nesse momento não havia mais frio, a neblina se dissipava junto com a manhã, e ela continuava a rodar e a dançar, como se não existisse tempo para além daquele, como se o mundo ali pudesse se encerrar, sem qualquer tipo de prejuízo ou dano. Os astros giravam em torno dela, aquele sol de energia tão brilhante que poderia até cegar os incautos. Eu já não temia pela minha visão, não sabia quantas horas ou dias haviam se passado desde que tudo começou, tinha apenas a certeza de que era bom. Quantos mais olhares atraía, mais energizada ela se tornava, como se fosse movida aos nossos desejos. Mas, como em todo delírio onírico, as coisas começavam a voltar ao normal... os carros recomeçaram a andar, as pessoas retomavam seus rumos, a neblina esvaiu-se e ela foi evaporando, como se quisesse convencer a todos de que aquilo nunca existiu. Entretanto, eu tomei para mim a missão de ser o reservatório daquela memória, daquele evento singular de toda a existência humana, para que ele nunca desaparecesse do nosso imaginário. Ela esteve ali, com toda sua força anínima, compartilhando com o mundo o que pode haver de mais belo. Já não sei se existirá beleza para além desse sonho, pois por um momento toda ela concentrou-se num mesmo lugar, para apreciação. Dizem alguns que tal evento se repete a cada milênio, mas, no que depender de mim, ele ecoará por todo e cada segundo da minha cronologia mnemônica.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Meu caminho

Tenho estado a procura do meu caminho. Um caminho reto, muito embora curvas façam bem, mas reto em termos de objetivos; para que eu saiba onde estou indo. Quero poder olhar para trás e para frente, sabendo o que me espera e o que já passou. Quero ter a visão do passado e do futuro, ali, disponíveis ao meu bel-prazer. Quero um caminho no qual eu possa andar só, quando me convier, onde me seja possível pisar nas folhas perfumadas do outono, ou mesmo varrê-las do chão quando me incomodarem. Quero ser senhor do meu caminho, em regime ditatorial, fazer dele o que eu bem quiser.

Aos que espiam por sobre os muros, alerto que não venham, pois meu caminho, apesar de reto, pode se tornar labiríntico. Meu caminho não faz sentido para vocês, cada qual deve buscar seu próprio. Há aqueles que precisam deixar marcas no caminho para saber voltar, joãozinhos, marias e teseus. Mas não preciso disso. O caminho é meu e, se por acaso eu me perder, será por decisão própria.

No meu caminho há dores, alegrias, saudades... saudades e saudades! Há o brilho do luar e o sol também se faz presente. Nesses eu não posso mandar. Eles chegam e vão embora, cumprem seu ciclo que sempre recomeça. É bem como o meu caminho. Cedo ou tarde acharei que já passei por dado ponto, mas seguirei ainda assim, crente de que se é algo é revisto deve ser importante. E vou aproveitar meu caminho, pavimentá-lo em alguns trechos, permitir que seja esburacado em outros, ou até mesmo que haja ladeiras. Meu caminho deve ser assim como é a vida, e, portanto, não posso impedir que as coisas fluam com certa naturalidade.

Entretanto, sei que todo caminho tem um fim. Não posso imaginar o que sentirei quando a primeira esquina for avistada. Voltar? Não! Esperar? Pelo quê?! Seguir em frente ignorando a nova vereda? Não dá para seguir eternamente em frente. É estratégico voltar, esperar, abrigar-se embaixo de uma árvore para esperar o vendaval passar, cochilar à sombra da vida quando o sol castigar. Não espere que eu responda o que farei quando a esquina invadir minha visão. Eu mesmo não sei. Esteja certo, porém, de que durante todo o caminho pensarei não sobre o que é correto ser feito, mas no que é mister ser realizado.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Essa tal coisa inominável

O que é isto que me corrói os anseios?

Uma força poderosa assim de quem sinto apenas a mão

Firme e pesada sobre minha vida.

Quem lhe outorga o direito de me tolher os movimentos?

Quem lhe confia a influência sobre meus desejos mais genuínos?

Onde estão os meus direitos?

Quem tripudiou sobre minhas alegrias?

Onde está a força invisível que regula minha atenção

E controla minhas memórias?

Sinto apenas que é difícil lutar contra um inimigo

Que esconde a face

Que tem medo de revelar-se enquanto ser

Que apenas fere por trás!

Ora, mas que ato covarde!

Não te envergonhas dos ataques sorrateiros?

Acaso te orgulhas de imiscuir-se nas minhas sombras?

Onde estás?

Deixa-me devolver a bofetada cotidiana!

Concede-me a doce oportunidade de cuspir minhas fúrias em tua face!

Permite-me pisar nos teus lamentos!

Mostra-me tuas dores para que delas eu ria!

Evidencia tuas feridas para que eu as toque com o dedo!

Oferta-me a realização sádica de nutrir-me às tuas custas

E à tua revelia!

Aceita por um momento que eu parasite tuas energias

Em forma de vingança ou justiça!

Ora, não sejas um rato moribundo e fétido!

Dá cá tuas cordas existenciais para que eu te enforque!

Oferta teu pescoço ao estrangulo!

Dá-me teus pensamentos-navalha para que te degole!

Aonde vais?

Sei que ainda estás aqui

Sinto tua presença em forma de peso

Um peso sobre meus pesares todos

Mas é preciso que se preserve a dignidade

Ao menos respeita meus sonhos

Deixa-me divagar nas minhas ilusões oníricas

Em paz!

Até entre os inimigos pode haver respeito!

Até entre os inimigos pode haver trégua!

Até em tempos de guerra pode haver acordo!



domingo, 22 de maio de 2011

Poucas foram as vezes em que a tristeza, de tão grande, modificou visivelmente meu rosto antes fingidamente impassível. Dessa vez não há forças para apenas sentir sem que o mundo saiba a respeito, é preciso expressar a dor, tal qual uma dor oriunda de estimulação física externa.
Uma vontade de me entregar no abismo do meu sentimento, de me lançar nele numa queda constante, quiçá inacabável, e me precipitar no fundo do que sinto. Chamo tristeza a isso, para simplificar, mas bem sei que o que agora se apresenta a mim é um amálgama de afetos, um Frankenstein sentimental, uma Quimera composta por coisas que mal sei nomear; apenas sinto e isso é mais do que suficiente para castigar o sujeito que trago comigo, para me atingir em minha individualidade e destruir o edifício de certezas que outrora erigi.

terça-feira, 26 de abril de 2011

E tenho vivido, simplesmente, respirado sem sentir o que respiro, pensado sem me pensar, chorado às vezes sem degustar o sabor agridoce das lágrimas, sorrido sem vislumbrar um lampejo de alegria... enfim, tenho encarado o mundo com olhos de desdém, um desdém tão meu que não ouso compartilhá-lo com ninguém. Por vezes à noite um sentido qualquer de ser das coisas se me é revelado e por um instante vejo meus sonhos como hiperônimo das minhas dúvidas. De dia recomeça o ciclo de ser apenas por ser, porque não se tem escolha nem gozo sustentador de vida. Poderia eu mesmo procurar a razão do existir, do meu existir, mas para isso é preciso sentir-se vivo e é mister romper com a prática prazerosa e destruidora de sentir-se ínfimo ante as próprias possibilidades. Amiúde me exigem uma explosão de vitalidade, uma felicidade que só existe nos contos de fada e que, no caso, portanto, inexiste. Ora, deixem-me aqui, só, com minhas tristezas e meu pessimismo companheiro de minhas labutas diárias. Já não quero sentir-me títere do que se me é imposto de fora... escravo desejo ser do que eu sinto e espero poder enxergar ao longe com os olhos que só minha miopia existencial me permite. Não me deem gafas, binóculos, lentes, telescópio... não, não os quero! Esqueçam-me aqui, na minha percepção humana, viciadamente humana, e que sustenta a si própria em suas típicas distorções!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Uma vida com flores de primavera é o que desejo. Uma vida ventilada de porquês respondidos, de canto espontâneo de passarinho, de melancolias apenas de memória. Desejo paz em tudo que me cerca, inclusive para mim mesmo, pois me sinto tão descolado da tranqulidade da vida que por vezes acho que de fato uma angústia basal de existência me constitui. Como suportar o peso de si diariamente e à noite sorrir-se no espelho? Mais grave ainda, como suportar o próprio peso, o próprio peso morto, de uma morte simbólica e nem por isso menos real? Como barrar o processo de putrefação existencial? Como impedir que meus próprios pensamentos, tais quais vermes sedentos de finitude, corroam meus planos de futuro? Como não ser o algoz cruel e impiedoso de si mesmo?

Preferiria não-ser por alguns instantes e depois brotar para a vida num parto normal, pouco doloroso e com breve recuperação. O resultado seria a novidade, a vida toda por viver. As minhas experiências as quero todas para mim, mas abortaria sem mais delongas todo o sofrimento para adquiri-las. Mas em que cidade ou país isso seria uma lei? Onde se nos permite um atentado simbólico contra si? Em qual ambiente um suicídio parcial de vida seria uma possibilidade? Por vezes sinto que estou só, na legislação de mim mesmo, onde tenho que arcar com as regras que eu próprio me impus... regras estas bastante inflexíveis e sem recursos contra condenação. É assim que me sinto: um condenado em auto-cárcere, sem janelas para a entrada do sol ou sem alimentos d'alma para nutrir-se. Com cordas e correntes tolhendo-me os anseios e vontades, a mim só me resta penar e ter pena de mim, no mais cruel sentimento que se permite ter para consigo mesmo.

domingo, 10 de abril de 2011

Borboletas para ti e para nós

Acho que merecemos borboletas pelo céu, em cores vibrantes, contentes de aquarela. Borboletas dos mais diversos tons, que se confundam com o arco-íris, e que brilhem para além do astro-rei. Desejamos borboletas em nossas vidas, daquelas que voam sem pedir licença, e que mesmo não tendo o endereço correto, alcancem a todos, beijando-lhes a existência. Quero borboletas livres, de liberdade intensa tão qual a de um prisioneiro que quebra as correntes d'alma. Procuro por borboletas que não tenham vergonha de seu bater de asas e que ao final de seu ciclo descansem ternamente no seu leito de fim. Busco borboletas que amiúde pousem no sentido da vida, com capacidade de erguer-se e direcionar-se para a longitude do seu destino.

Espero achar borboletas com desenhos os mais diversos, com olhinhos de criança pintados, com sorrisos de menina revelados. Desejo-te muitas borboletas, que te façam companhia noite e dia, mesmo que delas não te dês conta. Elas estarão sempre lá, voando, pousando, explorando universos, desafiando mistérios, enfrentando pensamentos dolentes. Que tua vida seja como uma borboleta, sem que te olvides do tempo rastejante de aprendizado, tampouco dos invernos de investimento na reclusão de ti mesmo. Que as borboletas povoem teus lamentos e tuas alegrias, para que elas sejam coloridas, aladas e plenamente vivenciadas!

terça-feira, 5 de abril de 2011

EU, NO PASSADO

Nem te conto sobre os contos que contei

Sobre os perigos que atravessei

Sobre os oceanos que desafiei

Sobre os medos que enfrentei


E como deveras me admirei

Quando o que buscava não encontrei

Quando não havia o que pensei

Quando diante de tudo apenas chorei


Como qualquer luz efêmera, passei

Como esperançoso que fui, esperei

Como tudo que é vivo, cansei

E como poucos, desesperei


Inspirado pela vida, levantei

E, apesar da fraqueza, continuei

como normal era, muitas vezes mais exasperei

e que não era possível viver assim,cogitei


Mas de fato me enganei

e uma vez mais surpreso fiquei

Ao perceber que na verdade sei

o quanto de mim dei


O quanto de ti tomei

Ainda não captei

Mas percebo que te entreguei

O afeto que antes nunca imaginei


Já não sei bem o que não falei

ou o que não superei

Mas o que ocultei

É tudo que tão bem de mim sei


E tudo pro alto joguei

Dessa vez já não acreditei

Que nova construção era possível, lamentei

Mas apesar de tudo, não chorei

E novo sentido para meu eu encontrei

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tão tanto

Tão bobos os medos, tão desinteressantes as fantasias, tão cruéis os
dias sem dias...
Tão ridículas as fraquezas, tão desnaturados os orgulhos, tão
indecentes os amores
Tão mal faladas as dores, tão malfadados os desejos, tão insossos os beijos
Tão misterioso o viver, tão desgostoso amanhecer, tão estranhas as cores
Tão tristes as manhãs, tão saborosos rancores, sem os quais se quer morrer
Tão infelizes as tardes, mais infelizes as noites, apenas feliz o sofrer
Tão dia já chegou, tão noite no viver, tão longas as estradas do perdão
Tão risonha chuva, tão amargurada lua, solar das minhas angústias
Tão desatinado pensar, tão sofrível gostar de quem não está
Tão triste imaginar que esse alguém nunca mais estará lá onde deveria ficar
Tão perdidos os sentidos, sem o teu calor amigo para chorar
Tão noites meus dias, tão tristes as alegrias, quando tu não estás.
Tão duro sonhar sem poder sarar as dores que doem sem pudor.
Tão desonesto querer o que não se pode ter, o que não se pode amar
Tão desonrado favor, tão indecente estupor da tua ausência tão presente
Tão presente o presente, tão inesquecível o pesar do teu corpo sobre o meu
Que apesar de tudo continua tão vão na manhã do nosso adeus.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Quisera eu escrever em versos!

Invejo, logo admiro, quem consegue escrever poesias em verso, quem consegue produzir rimas ricas e ser parnasiano ao menos uma vez em sua existência. Admiro sonetos, toda sua coerência interna e estrutural. Entretanto, tenho que admitir que é a poesia em prosa quem me faz sentir vivo, quem me alimenta no meu encontro diário com minhas angústias, quem me fornece champagne nas minhas alegrias e docemente brinda-me fitando os olhos. Não posso ser suficientemente conciso para escrever poesias em verso, pois o que sinto não cabe na métrica, não permite margens, tampouco regras. Não há governo para o que sinto, as palavras me são absolutistas e delas é a minha vontade. A prosa me invade ditatoriamente e eu só posso lhe fornecer meus temas, meus porquês e minhas ideias soltas ao vento. Não há coerência na escrita, há coerências de leitura e estas podem ser as mais variadas. A incoerência também é um tipo de coerência, mas um tipo perturbador de coerência. Mas o fato é que admiro quem domina a arte dos versos, ou quem é dominado por ela... quisera eu algum dia conseguir fazê-lo!

terça-feira, 22 de março de 2011

O Agnóstico e Deus

Se Deus existe, que ele nos livre do racionalismo excessivo, do positivismo inveterado, da cientifização desnecessária de toda e qualquer realidade.

Se Deus existe, que ele me proteja de mim mesmo quando eu me tornar insuportável a meus próprios sentidos, e que te proteja de mim também quando eu não for a melhor das companhias.

Que Deus me salve, caso exista, da agigantação de homens eternamente pequenos, da exacerbação da injustiça e de todos os vícios que não me tragam apenas prazeres.

Que Deus me ajude a lutar pelos meus ideais, mesmo que de tão caducos eles não se façam mais compreensíveis a si mesmos; que me ajude a esquecer aquilo que se revela danoso e atemporal em minha memória.

Que me livres, ó Deus, caso existas, das mazelas do mundo doente, das enfermidades do corpo e das doenças terminais que acometem a alma.

Se Deus existe, que o caminho se mostre menos nublado, que a clareza das minhas ideias ilumine o meu porvir e que eu não me perca nos labirintos de meus próprios medos.

Que Deus cuide dos meus mortos, caso exista, e que me ajude a enfrentar minhas mortes em vida, de modo que eu seja capaz de me revitalizar a cada dia e de ressuscitar ante meus inúmeros e dolorosos lutos.

Que meu Deus não me falhe, caso exista, quando eu tiver de me envolver na guerra dos homens, e que eu não esmoreça ante tanta destruição sem sentido. Que eu não me renda diante das lutas de uns poucos que são vendidas como o interesse de muitos.

Que eu caia em mim quando minha loucura se converter num animal indomável capaz de se auto-mutilar, e quando minhas paixões furiosas me fugirem ao controle.

Que eu desafie cada dificuldade com olhos de amanhã, e que meu futuro ao menos tangencie a realidade que oniricamente construí.

Se existires, Deus, faze com que antes de acreditar em ti eu tenha fé em mim mesmo e no meu poder transformador, para que eu não apenas chore quando o aparentemente incambiável desafiar meus olhos.

E que, finalmente, eu tenha clareza de pensamento para aproveitar as dádivas em vida e que as reconheça enquanto tal, a fim de que meus lamentos e arrependimentos se deem no meu próprio trajeto em busca da felicidade.

Se não existires, terei de fazer tudo isso sozinho e eis que me deparo com a grande fraqueza humana: o medo de ser senhor de seu destino e de ter de enfrentar a si próprio sem ter a quem recorrer.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Nós, no caminho

Já não há razão para supor que o melhor caminho é esse no qual já nos encontramos. Seguir o vento, seguir a intuição, a bússola de vida... qual caminho mal traçado nos espera? Que tipo de obstáculo nos levará a transpor? O fato é que desejo que me dês a mão, para que juntos possamos cruzar o breu dos dias e a luminosidade intensa das noites escuras. Não há o que temer. Nossos medos não fazem sentido quando estamos juntos; eles parecem deuses perdidos no frio da existência! Mas se algo corta o que amorosamente nos liga, somos fracos, caímos de joelhos e sem forças para continuar. Sinto, porém, que não nos desligamos, mas que escolhemos, por acidente talvez, caminhos diversos, e nossos sóis nos guiaram por diferentes possibilidades da bifurcação que está logo ali à frente. O sul do horizonte será nosso norte e lá nos encontraremos de novo. Estaremos mais fortes e mais certos das nossas necessidades mútuas, sedentos do que foi deixado para trás e que ulula tal qual o mais feroz e triste dos bichos! Não tenhamos medo de nos tocar novamente. As diferenças que surgiram da nossa odisseia individual apenas revelam o quão imensamente podemos nos completar e o quanto as polaridades são interdependentes e atraentes. Após tenebroso inverno, podemos ter clareza de que o frio da solidão não é a estação que procurávamos, e que o verão, repleto dos calores do abraço teu, está cada vez mais próximo e acessível. Posso sentir o pulsar do teu coração ao longe e ele, sim, me guiará para onde eu devo estar e de onde nunca deveria ter saído. O destino foi traçado por nossos desejos e dele pode ser feito o que quisermos. Não há força capaz de mudar isso!

domingo, 20 de março de 2011

Manhãs de domingo

As manhãs de domingo são as mais belas. Parece que toda aquela escuridão que se interpõe entre o ambiente e nossa percepção dele também tira folga no dia do Senhor. As coisas parecem transcorrer com um pouco mais de suavidade, as nuvens tranquilamente deslizam no macio do viver dos céus, os passarinhos cantam uma afinada canção regidos pela orquestra da natureza...

A verdade é que não sei se são de fato as manhãs de domingo mais admiráveis que outros dias e horários quaisquer ou se sou eu quem me desnudo das minhas dores, tristezas e desesperanças quando tal manhã irrompe a existência. Se ela não servir de nada mais, cumpre a nobre função de nos fazer olhar para o que há muito fora esquecido e de nos imprimir mais ânima àquilo que era feito sem que se enxergasse um porquê.

Nas manhãs de domingo tudo parece recuperar o sentido e tudo recobra consciência. Nada se passa automaticamente, tudo docemente se apresenta ao crivo do nosso eu.

Aos domingos de manhã tudo volta ao seu devido lugar. O que já foi, volta ou pensa em fazê-lo; o que ficou, sonha pegar o próximo trem; o que se destruiu, passa a desejar uma nova construção; o que morreu, nutre-se de vida no ventre da terra...

Não há incoerência matutina aos domingos. Tudo se encontra numa amada e esperada paz. Amiúde se deseja parar o tempo ou se cogita que todos os dias poderiam ter a dádiva de ser, ao menos uma vez por ano, uma manhã de domingo. Entretanto, só sabe a luz quem conhece a treva, logo se há semanas de apenas manhãs de domingo, as manhãs de domingo já não mais seriam manhãs de domingo, e tudo feneceria, sem ordem, sem razão, sem porquês, sem nada!