sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Belo e o Onírico

Era um sonho real, quase uma lembrança, e ela dançava pela neblina de uma manhã cinza. Seus movimentos eram o movimento da vida, em todas suas particularidades, e ela por si só podia reproduzir o ritual de várias dançarinas ao redor de uma fogueira. Não havia fogo mas havia desejo, havia paixão, logo tudo queimava ao seu entorno. Meus olhos mal podiam desviar-se daquele evento, que apesar de sonhado era tudo que por tanto tempo ansiei. Todos os mistérios do universo nela encontravam respaldo, pois seu jeito, gracioso e sensual, não permitia maiores aproximações investigativas. Todos a podiam tocar, mas apenas com o olhar... e a mim tampouco era permitido nada além. Eu sabia quem era aquela moça. Como não a reconhecer? Poder-se-iam passar séculos, vidas, mas aquele sorriso ousava desafiar o tempo. Ainda era o mesmo sorriso, a mesma graça de viver, a mesma leveza dos passos.

Seu olhar não encontrou o meu, talvez eu não tenha sido tão marcante para ela, mas ela tinha a doce capacidade de estimular todos os meus sentidos. Nesse momento não havia mais frio, a neblina se dissipava junto com a manhã, e ela continuava a rodar e a dançar, como se não existisse tempo para além daquele, como se o mundo ali pudesse se encerrar, sem qualquer tipo de prejuízo ou dano. Os astros giravam em torno dela, aquele sol de energia tão brilhante que poderia até cegar os incautos. Eu já não temia pela minha visão, não sabia quantas horas ou dias haviam se passado desde que tudo começou, tinha apenas a certeza de que era bom. Quantos mais olhares atraía, mais energizada ela se tornava, como se fosse movida aos nossos desejos. Mas, como em todo delírio onírico, as coisas começavam a voltar ao normal... os carros recomeçaram a andar, as pessoas retomavam seus rumos, a neblina esvaiu-se e ela foi evaporando, como se quisesse convencer a todos de que aquilo nunca existiu. Entretanto, eu tomei para mim a missão de ser o reservatório daquela memória, daquele evento singular de toda a existência humana, para que ele nunca desaparecesse do nosso imaginário. Ela esteve ali, com toda sua força anínima, compartilhando com o mundo o que pode haver de mais belo. Já não sei se existirá beleza para além desse sonho, pois por um momento toda ela concentrou-se num mesmo lugar, para apreciação. Dizem alguns que tal evento se repete a cada milênio, mas, no que depender de mim, ele ecoará por todo e cada segundo da minha cronologia mnemônica.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Meu caminho

Tenho estado a procura do meu caminho. Um caminho reto, muito embora curvas façam bem, mas reto em termos de objetivos; para que eu saiba onde estou indo. Quero poder olhar para trás e para frente, sabendo o que me espera e o que já passou. Quero ter a visão do passado e do futuro, ali, disponíveis ao meu bel-prazer. Quero um caminho no qual eu possa andar só, quando me convier, onde me seja possível pisar nas folhas perfumadas do outono, ou mesmo varrê-las do chão quando me incomodarem. Quero ser senhor do meu caminho, em regime ditatorial, fazer dele o que eu bem quiser.

Aos que espiam por sobre os muros, alerto que não venham, pois meu caminho, apesar de reto, pode se tornar labiríntico. Meu caminho não faz sentido para vocês, cada qual deve buscar seu próprio. Há aqueles que precisam deixar marcas no caminho para saber voltar, joãozinhos, marias e teseus. Mas não preciso disso. O caminho é meu e, se por acaso eu me perder, será por decisão própria.

No meu caminho há dores, alegrias, saudades... saudades e saudades! Há o brilho do luar e o sol também se faz presente. Nesses eu não posso mandar. Eles chegam e vão embora, cumprem seu ciclo que sempre recomeça. É bem como o meu caminho. Cedo ou tarde acharei que já passei por dado ponto, mas seguirei ainda assim, crente de que se é algo é revisto deve ser importante. E vou aproveitar meu caminho, pavimentá-lo em alguns trechos, permitir que seja esburacado em outros, ou até mesmo que haja ladeiras. Meu caminho deve ser assim como é a vida, e, portanto, não posso impedir que as coisas fluam com certa naturalidade.

Entretanto, sei que todo caminho tem um fim. Não posso imaginar o que sentirei quando a primeira esquina for avistada. Voltar? Não! Esperar? Pelo quê?! Seguir em frente ignorando a nova vereda? Não dá para seguir eternamente em frente. É estratégico voltar, esperar, abrigar-se embaixo de uma árvore para esperar o vendaval passar, cochilar à sombra da vida quando o sol castigar. Não espere que eu responda o que farei quando a esquina invadir minha visão. Eu mesmo não sei. Esteja certo, porém, de que durante todo o caminho pensarei não sobre o que é correto ser feito, mas no que é mister ser realizado.