segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um Earl of Abergavenny de tesouro simbólico

Um naufrágio. Em águas profundas encerrei meu destino. Tudo que eu fui, as porcelanas do meu corpo, o ouro das minhas visões e a prata do meu mundo ficarão descansadas no fundo mais profundo do mar. Quiçá esqueçam tudo isso por séculos e talvez nunca queiram resgatar minha história. As circunstâncias do naufrágio não passarão de especulações a serem sustentadas ora pela crendice popular ora pelos homens ditos de ciência. A essa altura, muito pouca diferença faz. O fato é que afundei. Ao longo do processo de descensão e decadência pude vivenciar o franco estado de inanição. Minha morte dava vida à vida circundante. Os seres marinhos não lamentaram, tampouco os piratas. Em pouco tempo mesclado estava eu a tudo que outrora também submergiu. Minhas armas de guerra não foram suficientes, minha tripulação, meus eus em mim, nada puderam fazer. Meu capitão, meu ego amiúde megalômano, apenas pôde lamentar, sem poder se dar ao direito covarde de salvar a si próprio. Mas não sou eu bem um Earl of Abergavenny pois meu tesouro não tem valor. Ninguém poderá me alcançar. Não há resgate suficientemente intrépido capaz de trazer-me uma vez mais à superfície, porque sou muito pesado, minha carga é de toneladas... e se já nem mesmo eu tenho algo a fazer, por favor suspendam as buscas!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

E nos queríamos, simplesmente. Teu olhar comia cada segundo do meu sorriso, minha boca degustava cada centímetro da tua pele, assim, ao longe, mas tão perto que eu poderia mesmo descrever-te o sabor. E nos amávamos às escuras, às escondidas, esperávamos que a penumbra caísse sobre a terra para manifestar o que já estava tão evidente àqueles que não são cegos. E eu estava cego, tão cego que só exergava diante de mim a possibilidade da tua presença, a presença tão presente nos meus sonhos e devaneios diurnos. E não havia quem nos condenasse, exceto nosso próprio receio da dúvida, nosso medo do porvir inseguro.

A Partida

Foi arrumando as malas para a viagem que ele percebeu o excesso de bagagem. Não havia, porém, como reduzir o que lhe interessava levar, tampouco era possível, naquele momento, comprar mais mochilas. Viu-se diante de um impasse, talvez um dos maiores da sua existência, pois nunca lhe fora ensinado, e ele nunca aprendeu por si só, a desvencilhar-se do que para muitos seria visto como supérfluo. Tudo lhe parecia importante, todo objeto que ali estava tinha especial valor, cada um deles contava um pouco da sua história, era membro permanente da sua biografia. Abandonar qualquer coisa seria como amputar-lhe um membro do corpo; doloroso demais para ser levado a cabo. Mais de uma vez pensou em não levar nada, para não ser injusto ao fazer escolhas, mas não havia como desnudar-se de tudo para começar do zero. Paulatinamente foi percebendo que algumas coisas pesavam demais, desequilibravam todo aquele sistema chamado mala e ocupavam mais espaço do que deveriam.

Usando sua capacidade humana de planejamento, decidiu pensar sobre o que mais ele precisaria nessa viagem específica, mas isso exigiria dele uma habilidade próxima dos profetas, pois certas coisas não permitem inferências, por mais consistentes que estas pareçam ser em princípio. Foi-se apercebendo de que, na verdade, idealmente levaria muito mais coisas do que já havia selecionado, e que lhe seria demasiado doloroso ter que, mais uma vez, filtrar o que era importante. Entretanto, ele tinha clareza de que para essa viagem nem tudo era possível carregar e não adiantava pagar pelo excesso de babagem, porque essa possibilidade inexistia. Era preciso mesmo ter coragem e selecionar um pouco melhor, aproveitando o pouco tempo que lhe restava antes do embarque. Foi o que fez. Retirou toda aquela bagagem outrora arrumada, repensou o valor de cada uma delas e decidiu que, mais importante que levar, era mister deixar algumas coisas por aqui, pois teriam mais valor nessas terras. Deu-se conta de que deixar coisas não significa, necessariamente, abandoná-las; pelo contrário, deixar algo cria um elo eterno entre aquele que fica e aquele que vai. E ele sabia que não mais voltaria, pelo menos não nesses tempos, e eis que decidiu levar apenas metade das suas coisas. A outra metade aqui ficaria, contando para todos sua história, para que as próximas gerações tivessem acesso ao seu legado. Preferiu partir sem se despedir, sempre detestou despedidas tristes, e essa, especialmente, deveria ser vivenciada com leveza, afinal, era sua última viagem com destino incerto... nesse ponto sentia-se em casa, uma vez que partir sem ter planos além de aproveitar a viagem sempre foi algo que lhe apeteceu.

Eis que a hora chegou. Uma última lágrima ousou-lhe cair pela face, beijando-lhe o pescoço e finalizando seu destino na gola da camisa amarela que trajava. Sua última gota vital, seu último fluido corporal antes da partida. Deu tempo de sentir saudade, alegria, arrependimento, raiva, todos aqueles afetos tipicamente humanos. Isso também fazia parte do processo de levar e deixar coisas, e alguns desses sentimentos foram deixados para trás, tornando sua mala mais leve. Agora sim se sentia capaz de conduzir sua mala. Aquele peso que parecia de toneladas se tornou suportável e ele sentiu satisfação pelas escolhas que fez. Viajar satisfeito com o que se leva e o que se deixa é essencial para aproveitar bem todo o processo. E ele foi... nesse voo não há atrasos, não há acidentes. O destino pode ser incerto, mas sua chegada é uma questão incontestável. Não se sabe ao certo se partiu sozinho ou acompanhado, mas levou consigo o que de fato precisava, já que suas necessidades serão outras a partir de então...