terça-feira, 26 de abril de 2011

E tenho vivido, simplesmente, respirado sem sentir o que respiro, pensado sem me pensar, chorado às vezes sem degustar o sabor agridoce das lágrimas, sorrido sem vislumbrar um lampejo de alegria... enfim, tenho encarado o mundo com olhos de desdém, um desdém tão meu que não ouso compartilhá-lo com ninguém. Por vezes à noite um sentido qualquer de ser das coisas se me é revelado e por um instante vejo meus sonhos como hiperônimo das minhas dúvidas. De dia recomeça o ciclo de ser apenas por ser, porque não se tem escolha nem gozo sustentador de vida. Poderia eu mesmo procurar a razão do existir, do meu existir, mas para isso é preciso sentir-se vivo e é mister romper com a prática prazerosa e destruidora de sentir-se ínfimo ante as próprias possibilidades. Amiúde me exigem uma explosão de vitalidade, uma felicidade que só existe nos contos de fada e que, no caso, portanto, inexiste. Ora, deixem-me aqui, só, com minhas tristezas e meu pessimismo companheiro de minhas labutas diárias. Já não quero sentir-me títere do que se me é imposto de fora... escravo desejo ser do que eu sinto e espero poder enxergar ao longe com os olhos que só minha miopia existencial me permite. Não me deem gafas, binóculos, lentes, telescópio... não, não os quero! Esqueçam-me aqui, na minha percepção humana, viciadamente humana, e que sustenta a si própria em suas típicas distorções!

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