Um naufrágio. Em águas profundas encerrei meu destino. Tudo que eu fui, as porcelanas do meu corpo, o ouro das minhas visões e a prata do meu mundo ficarão descansadas no fundo mais profundo do mar. Quiçá esqueçam tudo isso por séculos e talvez nunca queiram resgatar minha história. As circunstâncias do naufrágio não passarão de especulações a serem sustentadas ora pela crendice popular ora pelos homens ditos de ciência. A essa altura, muito pouca diferença faz. O fato é que afundei. Ao longo do processo de descensão e decadência pude vivenciar o franco estado de inanição. Minha morte dava vida à vida circundante. Os seres marinhos não lamentaram, tampouco os piratas. Em pouco tempo mesclado estava eu a tudo que outrora também submergiu. Minhas armas de guerra não foram suficientes, minha tripulação, meus eus em mim, nada puderam fazer. Meu capitão, meu ego amiúde megalômano, apenas pôde lamentar, sem poder se dar ao direito covarde de salvar a si próprio. Mas não sou eu bem um Earl of Abergavenny pois meu tesouro não tem valor. Ninguém poderá me alcançar. Não há resgate suficientemente intrépido capaz de trazer-me uma vez mais à superfície, porque sou muito pesado, minha carga é de toneladas... e se já nem mesmo eu tenho algo a fazer, por favor suspendam as buscas!
Nenhum comentário:
Postar um comentário