O que é isto que me corrói os anseios?
Uma força poderosa assim de quem sinto apenas a mão
Firme e pesada sobre minha vida.
Quem lhe outorga o direito de me tolher os movimentos?
Quem lhe confia a influência sobre meus desejos mais genuínos?
Onde estão os meus direitos?
Quem tripudiou sobre minhas alegrias?
Onde está a força invisível que regula minha atenção
E controla minhas memórias?
Sinto apenas que é difícil lutar contra um inimigo
Que esconde a face
Que tem medo de revelar-se enquanto ser
Que apenas fere por trás!
Ora, mas que ato covarde!
Não te envergonhas dos ataques sorrateiros?
Acaso te orgulhas de imiscuir-se nas minhas sombras?
Onde estás?
Deixa-me devolver a bofetada cotidiana!
Concede-me a doce oportunidade de cuspir minhas fúrias em tua face!
Permite-me pisar nos teus lamentos!
Mostra-me tuas dores para que delas eu ria!
Evidencia tuas feridas para que eu as toque com o dedo!
Oferta-me a realização sádica de nutrir-me às tuas custas
E à tua revelia!
Aceita por um momento que eu parasite tuas energias
Em forma de vingança ou justiça!
Ora, não sejas um rato moribundo e fétido!
Dá cá tuas cordas existenciais para que eu te enforque!
Oferta teu pescoço ao estrangulo!
Dá-me teus pensamentos-navalha para que te degole!
Aonde vais?
Sei que ainda estás aqui
Sinto tua presença em forma de peso
Um peso sobre meus pesares todos
Mas é preciso que se preserve a dignidade
Ao menos respeita meus sonhos
Deixa-me divagar nas minhas ilusões oníricas
Em paz!
Até entre os inimigos pode haver respeito!
Até entre os inimigos pode haver trégua!
Até em tempos de guerra pode haver acordo!