Uma vida com flores de primavera é o que desejo. Uma vida ventilada de porquês respondidos, de canto espontâneo de passarinho, de melancolias apenas de memória. Desejo paz em tudo que me cerca, inclusive para mim mesmo, pois me sinto tão descolado da tranqulidade da vida que por vezes acho que de fato uma angústia basal de existência me constitui. Como suportar o peso de si diariamente e à noite sorrir-se no espelho? Mais grave ainda, como suportar o próprio peso, o próprio peso morto, de uma morte simbólica e nem por isso menos real? Como barrar o processo de putrefação existencial? Como impedir que meus próprios pensamentos, tais quais vermes sedentos de finitude, corroam meus planos de futuro? Como não ser o algoz cruel e impiedoso de si mesmo?
Preferiria não-ser por alguns instantes e depois brotar para a vida num parto normal, pouco doloroso e com breve recuperação. O resultado seria a novidade, a vida toda por viver. As minhas experiências as quero todas para mim, mas abortaria sem mais delongas todo o sofrimento para adquiri-las. Mas em que cidade ou país isso seria uma lei? Onde se nos permite um atentado simbólico contra si? Em qual ambiente um suicídio parcial de vida seria uma possibilidade? Por vezes sinto que estou só, na legislação de mim mesmo, onde tenho que arcar com as regras que eu próprio me impus... regras estas bastante inflexíveis e sem recursos contra condenação. É assim que me sinto: um condenado em auto-cárcere, sem janelas para a entrada do sol ou sem alimentos d'alma para nutrir-se. Com cordas e correntes tolhendo-me os anseios e vontades, a mim só me resta penar e ter pena de mim, no mais cruel sentimento que se permite ter para consigo mesmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário