E tenho vivido, simplesmente, respirado sem sentir o que respiro, pensado sem me pensar, chorado às vezes sem degustar o sabor agridoce das lágrimas, sorrido sem vislumbrar um lampejo de alegria... enfim, tenho encarado o mundo com olhos de desdém, um desdém tão meu que não ouso compartilhá-lo com ninguém. Por vezes à noite um sentido qualquer de ser das coisas se me é revelado e por um instante vejo meus sonhos como hiperônimo das minhas dúvidas. De dia recomeça o ciclo de ser apenas por ser, porque não se tem escolha nem gozo sustentador de vida. Poderia eu mesmo procurar a razão do existir, do meu existir, mas para isso é preciso sentir-se vivo e é mister romper com a prática prazerosa e destruidora de sentir-se ínfimo ante as próprias possibilidades. Amiúde me exigem uma explosão de vitalidade, uma felicidade que só existe nos contos de fada e que, no caso, portanto, inexiste. Ora, deixem-me aqui, só, com minhas tristezas e meu pessimismo companheiro de minhas labutas diárias. Já não quero sentir-me títere do que se me é imposto de fora... escravo desejo ser do que eu sinto e espero poder enxergar ao longe com os olhos que só minha miopia existencial me permite. Não me deem gafas, binóculos, lentes, telescópio... não, não os quero! Esqueçam-me aqui, na minha percepção humana, viciadamente humana, e que sustenta a si própria em suas típicas distorções!
terça-feira, 26 de abril de 2011
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Uma vida com flores de primavera é o que desejo. Uma vida ventilada de porquês respondidos, de canto espontâneo de passarinho, de melancolias apenas de memória. Desejo paz em tudo que me cerca, inclusive para mim mesmo, pois me sinto tão descolado da tranqulidade da vida que por vezes acho que de fato uma angústia basal de existência me constitui. Como suportar o peso de si diariamente e à noite sorrir-se no espelho? Mais grave ainda, como suportar o próprio peso, o próprio peso morto, de uma morte simbólica e nem por isso menos real? Como barrar o processo de putrefação existencial? Como impedir que meus próprios pensamentos, tais quais vermes sedentos de finitude, corroam meus planos de futuro? Como não ser o algoz cruel e impiedoso de si mesmo?
Preferiria não-ser por alguns instantes e depois brotar para a vida num parto normal, pouco doloroso e com breve recuperação. O resultado seria a novidade, a vida toda por viver. As minhas experiências as quero todas para mim, mas abortaria sem mais delongas todo o sofrimento para adquiri-las. Mas em que cidade ou país isso seria uma lei? Onde se nos permite um atentado simbólico contra si? Em qual ambiente um suicídio parcial de vida seria uma possibilidade? Por vezes sinto que estou só, na legislação de mim mesmo, onde tenho que arcar com as regras que eu próprio me impus... regras estas bastante inflexíveis e sem recursos contra condenação. É assim que me sinto: um condenado em auto-cárcere, sem janelas para a entrada do sol ou sem alimentos d'alma para nutrir-se. Com cordas e correntes tolhendo-me os anseios e vontades, a mim só me resta penar e ter pena de mim, no mais cruel sentimento que se permite ter para consigo mesmo.
domingo, 10 de abril de 2011
Borboletas para ti e para nós
Acho que merecemos borboletas pelo céu, em cores vibrantes, contentes de aquarela. Borboletas dos mais diversos tons, que se confundam com o arco-íris, e que brilhem para além do astro-rei. Desejamos borboletas em nossas vidas, daquelas que voam sem pedir licença, e que mesmo não tendo o endereço correto, alcancem a todos, beijando-lhes a existência. Quero borboletas livres, de liberdade intensa tão qual a de um prisioneiro que quebra as correntes d'alma. Procuro por borboletas que não tenham vergonha de seu bater de asas e que ao final de seu ciclo descansem ternamente no seu leito de fim. Busco borboletas que amiúde pousem no sentido da vida, com capacidade de erguer-se e direcionar-se para a longitude do seu destino.
Espero achar borboletas com desenhos os mais diversos, com olhinhos de criança pintados, com sorrisos de menina revelados. Desejo-te muitas borboletas, que te façam companhia noite e dia, mesmo que delas não te dês conta. Elas estarão sempre lá, voando, pousando, explorando universos, desafiando mistérios, enfrentando pensamentos dolentes. Que tua vida seja como uma borboleta, sem que te olvides do tempo rastejante de aprendizado, tampouco dos invernos de investimento na reclusão de ti mesmo. Que as borboletas povoem teus lamentos e tuas alegrias, para que elas sejam coloridas, aladas e plenamente vivenciadas!
terça-feira, 5 de abril de 2011
EU, NO PASSADO
Nem te conto sobre os contos que contei
Sobre os perigos que atravessei
Sobre os oceanos que desafiei
Sobre os medos que enfrentei
E como deveras me admirei
Quando o que buscava não encontrei
Quando não havia o que pensei
Quando diante de tudo apenas chorei
Como qualquer luz efêmera, passei
Como esperançoso que fui, esperei
Como tudo que é vivo, cansei
E como poucos, desesperei
Inspirado pela vida, levantei
E, apesar da fraqueza, continuei
como normal era, muitas vezes mais exasperei
e que não era possível viver assim,cogitei
Mas de fato me enganei
e uma vez mais surpreso fiquei
Ao perceber que na verdade sei
o quanto de mim dei
O quanto de ti tomei
Ainda não captei
Mas percebo que te entreguei
O afeto que antes nunca imaginei
Já não sei bem o que não falei
ou o que não superei
Mas o que ocultei
É tudo que tão bem de mim sei
E tudo pro alto joguei
Dessa vez já não acreditei
Que nova construção era possível, lamentei
Mas apesar de tudo, não chorei
E novo sentido para meu eu encontrei