quarta-feira, 23 de março de 2011

Quisera eu escrever em versos!

Invejo, logo admiro, quem consegue escrever poesias em verso, quem consegue produzir rimas ricas e ser parnasiano ao menos uma vez em sua existência. Admiro sonetos, toda sua coerência interna e estrutural. Entretanto, tenho que admitir que é a poesia em prosa quem me faz sentir vivo, quem me alimenta no meu encontro diário com minhas angústias, quem me fornece champagne nas minhas alegrias e docemente brinda-me fitando os olhos. Não posso ser suficientemente conciso para escrever poesias em verso, pois o que sinto não cabe na métrica, não permite margens, tampouco regras. Não há governo para o que sinto, as palavras me são absolutistas e delas é a minha vontade. A prosa me invade ditatoriamente e eu só posso lhe fornecer meus temas, meus porquês e minhas ideias soltas ao vento. Não há coerência na escrita, há coerências de leitura e estas podem ser as mais variadas. A incoerência também é um tipo de coerência, mas um tipo perturbador de coerência. Mas o fato é que admiro quem domina a arte dos versos, ou quem é dominado por ela... quisera eu algum dia conseguir fazê-lo!

terça-feira, 22 de março de 2011

O Agnóstico e Deus

Se Deus existe, que ele nos livre do racionalismo excessivo, do positivismo inveterado, da cientifização desnecessária de toda e qualquer realidade.

Se Deus existe, que ele me proteja de mim mesmo quando eu me tornar insuportável a meus próprios sentidos, e que te proteja de mim também quando eu não for a melhor das companhias.

Que Deus me salve, caso exista, da agigantação de homens eternamente pequenos, da exacerbação da injustiça e de todos os vícios que não me tragam apenas prazeres.

Que Deus me ajude a lutar pelos meus ideais, mesmo que de tão caducos eles não se façam mais compreensíveis a si mesmos; que me ajude a esquecer aquilo que se revela danoso e atemporal em minha memória.

Que me livres, ó Deus, caso existas, das mazelas do mundo doente, das enfermidades do corpo e das doenças terminais que acometem a alma.

Se Deus existe, que o caminho se mostre menos nublado, que a clareza das minhas ideias ilumine o meu porvir e que eu não me perca nos labirintos de meus próprios medos.

Que Deus cuide dos meus mortos, caso exista, e que me ajude a enfrentar minhas mortes em vida, de modo que eu seja capaz de me revitalizar a cada dia e de ressuscitar ante meus inúmeros e dolorosos lutos.

Que meu Deus não me falhe, caso exista, quando eu tiver de me envolver na guerra dos homens, e que eu não esmoreça ante tanta destruição sem sentido. Que eu não me renda diante das lutas de uns poucos que são vendidas como o interesse de muitos.

Que eu caia em mim quando minha loucura se converter num animal indomável capaz de se auto-mutilar, e quando minhas paixões furiosas me fugirem ao controle.

Que eu desafie cada dificuldade com olhos de amanhã, e que meu futuro ao menos tangencie a realidade que oniricamente construí.

Se existires, Deus, faze com que antes de acreditar em ti eu tenha fé em mim mesmo e no meu poder transformador, para que eu não apenas chore quando o aparentemente incambiável desafiar meus olhos.

E que, finalmente, eu tenha clareza de pensamento para aproveitar as dádivas em vida e que as reconheça enquanto tal, a fim de que meus lamentos e arrependimentos se deem no meu próprio trajeto em busca da felicidade.

Se não existires, terei de fazer tudo isso sozinho e eis que me deparo com a grande fraqueza humana: o medo de ser senhor de seu destino e de ter de enfrentar a si próprio sem ter a quem recorrer.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Nós, no caminho

Já não há razão para supor que o melhor caminho é esse no qual já nos encontramos. Seguir o vento, seguir a intuição, a bússola de vida... qual caminho mal traçado nos espera? Que tipo de obstáculo nos levará a transpor? O fato é que desejo que me dês a mão, para que juntos possamos cruzar o breu dos dias e a luminosidade intensa das noites escuras. Não há o que temer. Nossos medos não fazem sentido quando estamos juntos; eles parecem deuses perdidos no frio da existência! Mas se algo corta o que amorosamente nos liga, somos fracos, caímos de joelhos e sem forças para continuar. Sinto, porém, que não nos desligamos, mas que escolhemos, por acidente talvez, caminhos diversos, e nossos sóis nos guiaram por diferentes possibilidades da bifurcação que está logo ali à frente. O sul do horizonte será nosso norte e lá nos encontraremos de novo. Estaremos mais fortes e mais certos das nossas necessidades mútuas, sedentos do que foi deixado para trás e que ulula tal qual o mais feroz e triste dos bichos! Não tenhamos medo de nos tocar novamente. As diferenças que surgiram da nossa odisseia individual apenas revelam o quão imensamente podemos nos completar e o quanto as polaridades são interdependentes e atraentes. Após tenebroso inverno, podemos ter clareza de que o frio da solidão não é a estação que procurávamos, e que o verão, repleto dos calores do abraço teu, está cada vez mais próximo e acessível. Posso sentir o pulsar do teu coração ao longe e ele, sim, me guiará para onde eu devo estar e de onde nunca deveria ter saído. O destino foi traçado por nossos desejos e dele pode ser feito o que quisermos. Não há força capaz de mudar isso!

domingo, 20 de março de 2011

Manhãs de domingo

As manhãs de domingo são as mais belas. Parece que toda aquela escuridão que se interpõe entre o ambiente e nossa percepção dele também tira folga no dia do Senhor. As coisas parecem transcorrer com um pouco mais de suavidade, as nuvens tranquilamente deslizam no macio do viver dos céus, os passarinhos cantam uma afinada canção regidos pela orquestra da natureza...

A verdade é que não sei se são de fato as manhãs de domingo mais admiráveis que outros dias e horários quaisquer ou se sou eu quem me desnudo das minhas dores, tristezas e desesperanças quando tal manhã irrompe a existência. Se ela não servir de nada mais, cumpre a nobre função de nos fazer olhar para o que há muito fora esquecido e de nos imprimir mais ânima àquilo que era feito sem que se enxergasse um porquê.

Nas manhãs de domingo tudo parece recuperar o sentido e tudo recobra consciência. Nada se passa automaticamente, tudo docemente se apresenta ao crivo do nosso eu.

Aos domingos de manhã tudo volta ao seu devido lugar. O que já foi, volta ou pensa em fazê-lo; o que ficou, sonha pegar o próximo trem; o que se destruiu, passa a desejar uma nova construção; o que morreu, nutre-se de vida no ventre da terra...

Não há incoerência matutina aos domingos. Tudo se encontra numa amada e esperada paz. Amiúde se deseja parar o tempo ou se cogita que todos os dias poderiam ter a dádiva de ser, ao menos uma vez por ano, uma manhã de domingo. Entretanto, só sabe a luz quem conhece a treva, logo se há semanas de apenas manhãs de domingo, as manhãs de domingo já não mais seriam manhãs de domingo, e tudo feneceria, sem ordem, sem razão, sem porquês, sem nada!